Carnaval

São meia noite. Uma sexta de véspera de Carnaval. Na rua, tudo parece ser samba. Todos se preparam para quatro ou cinco dias, intensos, densos, de alegria. Aquela alegria brasileira que eu, definitivamente, nunca entendi bem. São meia noite, eu me preparo, para quatro ou cinco dias, sóbrios, densos, intensos, de solidão.

Eu escolhi assim. O dia foi assim, ruim. Ninguém sabe. Mas foi. Hoje eu quis fazer um texto de capa, me foi negado sutilmente, questionei minha competência. Aqui estou. Troquei uma viagem ao Rio de Janeiro com o melhor amigo, para aqui ficar. Os fatos que me levam?

Vão muito alem desse tempo sombrio profissional. Um tempo profissional que me tira a alegria, que me deixa escuro os planos. Que me fazem desconfiar de mim, do meu talento. E uma paixão, amor (?), sei lá que raio é isso.

Ele teve ciúmes, eu achei fofo. Mas e eu? Eu no Rio de Janeiro faria o que? Me sentiria triste, porque preferiria gastar esse dinheiro com uma viagem mais ao sul. Hoje o tempo mudou, ele se sentiu culpado. O culpado sou eu, que me sinto péssimo e paraliso quando apaixonado. Fiz o que fazem os amantes: o encorajei a ser feliz. E assim foi.

Ciúmes? Não exatamente. Uma viagem com o pai, que problemas há. No mais, não somos namorados, não somos nada. E mesmo se fossemos. Na minha cabeça, todo tipo de pensamento vai e se esvai: que ele foi se encontrar com outros amigos e depois o normal: tolice Antonio, tolice. Ele não mentiria pra você. Mas… Como já fizeram isso comigo no passado. Ah sim, uma cicatriz, mais uma sequela. Ainda aberta. O problema, na verdade, não são os amigos, não é a divesão. Quero muito que ele seja feliz, sempre. Mas, eu valia alguma esforço?

A duvida maior ficou porque desde sempre,ele me disse que tinha que ficar com o irmão, ou whatever. Depois já ia ficar mais num amigo. E eu fui ficando confuso. Fraco. Dinheiro é todo esse problema? Ficar comigo cinco dias em SP seria tão ostensivo assim? Não sei… O problema é mais embaixo.

Se a minha sede corresponde a sua. Se a nossa sede é a mesma. Afinal, eu daria o jeito pífio de vê-lo, com ou sem dinheiro, pelo tempo junto e pelo feriado longo. Vários sinais. Um breve eu vou na Páscoa, daqui um mês. O coração se enche porque tem data. Mas e o carnaval que ficou meu coração?

Um carnaval que sofre de solidão. Que se pergunta se novamente não é indiferença,  questiona a própria entrega. E depois, como bom maduro que já é: admite: deixa de fazer esse carnaval, ops, essa tempestade. As pessoas são diferentes. Cabe a você, somente a você, aceitar as diferenças alheias e exigir menos.

E eu tenho conseguido.  Que bom!

E eu tenho conseguido. Mas quem fará algo por mim?

E eu tenho conseguido. Que bom?

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