Eu estava num carro. Quando percebo, tocam as minhas mãos. Não, eu não lembrava o que era isto. Não sabia que alguém podia me dar carinho enquanto dirigia. Já tive isto. Mas fazia tanto tempo. Chorei.
Chorei de alegria. Tive dó de mim. Não, não tive dó. Apenas lamentei por ter me afastado de quem eu sou. Lembrei dos últimos sete meses. De como eu tentei. De como achava que havia sido apenas maduro. Mas tanta coisa aconteceu, foram tantos ataques gratuitos. Sempre com o mesmo mote: “eu posso atacar, posso magoar, só não faça isso comigo”. Agüentei como saco de pancada, levei tudo com o rosto levantado. Quando – sem querer ataquei – não me questionou, julgou provocação e me extinguiu da sua vida.
Li que você me matou, numa dessas muretas que dividem uma estrada. Tudo porquê? Porque você se sentiu provocado. Não, eu não queria, quanto menos na primeira noite que decidi sair, não imaginei que te veria. Não naquele lugar. Há tanto tempo não dançava, já não sabia o que era rir. Mas isso você nunca soube, ou melhor, não se importou.
Era verdade, eu estava com alguém do seu passado na minha vida. Como amigo essa pessoa entrou e me fez rir naquele sábado. Era engraçado o cruzamento, mas não era pra te provocar. De maneira nenhuma. Eu só estava tentando seguir a vida. Ver você não me foi fácil. Foi dolorido. Mas você realmente se importava? Você que se divertia no dia seguinte. Ficava com pessoas na semana seguinte. Você que interpretava tudo errado e me fazia devoluções. Domingo eu pensei que deveria esclarecer. Silêncio. Medo.
Eu não quero mais isso, alguém frio, vil. Eu não quero alguém que só olhe o próprio umbigo. Que nas poucas vezes que tentei me diga “Porque isso teria a ver com você?”. Que consiga me matar num acidente, mas que nunca, nunca conseguiu pedir desculpas. Eu saí muito mais ferido, com tanta coisa. Até hoje frases como “Deixe de ser petulante! Porque me ligou? Pare de se justificar!” ecoam no meu ouvido. Você não sabe o quanto eu fiquei mal. O quanto uma devolução pode fazer mal. O quanto tentar ser doce e ouvir o contrario me fez mal. Você não sabe. E nunca olhará o que me fez, porque na sua cabeça terá sempre a razão e só está disponível para rebater.
Eu tenho vivido lentamente. Apegado no meu trabalho. Com alguns nomes novos na minha vida. Eu poderia ter te explicado. Não, eu não marco encontros visiveis com alguém que você conhece, não te excluí, não te provoco dessa forma que você faz diariamente há quase um mês. Eu continuo mantendo o respeito, ou tentando te dar respeito. Porque por mais que você faça tudo isso, eu não consigo jogar na mesma moeda.
No fim de semana eu chorei por ter dançado. Eu olhei pro meu melhor amigo e para meu novo amigo e disse: obrigado por me fazerem sorrir, eu não lembrava o que era isto. Mas ontem, veja bem, ontem alguém me tocou. Ontem alguém disse que eu era belo, ontem eu lembrei da verdade: você nunca me deu nada disso, o que eu poderia esperar? Reconhecimento? Maturidade? Mais fácil o papel de vitima, não?
Só sei que ontem, chorei. Como criança. E desejei, lá no fundo, no âmago, nunca mais perder de vista o que sou. Bobo, romântico, sonhador, carinhoso. Porque ontem eu me lembrei que ainda é possível ser tocado, ainda há quem queira tocar. E pedi a qualquer força divina que tenha me ouvido outra coisa: que eu reconheça quem me queira realmente, para que nunca mais eu tenha essa experiência conveniente de mudar pelo outro sem nada em troca, nenhuma concessão.
Porque ontem, bem, eu chorei. E eu adoro chorar.
